O ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil) é considerado foragido pela Polícia Civil após não ser localizado nesta quinta-feira (17) durante o cumprimento de um mandado de prisão. Ele é um dos alvos da Operação Vectura Corrupta, que investiga a suposta infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas de transporte coletivo e no poder público.
A operação é realizada pela Polícia Civil, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. Ao todo, são cumpridos mandados de prisão e de busca e apreensão em cidades como São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
Segundo as investigações, Milton Leite teria influência sobre decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC. Elementos obtidos pelos investigadores, incluindo interceptações telefônicas e informações de apurações anteriores, apontariam que decisões envolvendo algumas dessas empresas dependeriam do conhecimento ou da aprovação do ex-vereador.
No pedido que fundamentou a operação, Milton Leite também é citado como responsável direto pela operação de algumas empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela organização criminosa. Policiais militares ouvidos em procedimento no Tribunal de Justiça Militar teriam afirmado que ele seria o chamado “dono de fato” da Transwolff, empresa que já foi alvo de investigação por suspeita de ligação com a facção.
A investigação aponta ainda que 12 das 22 empresas de transporte coletivo que operam na capital paulista seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC. Segundo os investigadores, integrantes e intermediários da organização teriam utilizado as empresas para movimentar dinheiro, inclusive por meio de negociações envolvendo a compra e venda de ônibus, além de supostamente utilizar contratos e procedimentos relacionados ao transporte público para ampliar a atuação da facção.
Policiais foram até a residência de Milton Leite para cumprir o mandado de prisão, mas ele não foi encontrado. Segundo informações obtidas durante a diligência, o ex-vereador estava em casa até a tarde de quarta-feira (16), quando teria saído para um compromisso.
A Polícia Civil passou a considerá-lo foragido diante das circunstâncias encontradas durante a operação. Equipes permaneceram no imóvel para cumprir o mandado de busca e apreensão.
Milton, porém, nega que esteja foragido. Em manifestação divulgada nesta quinta-feira, afirmou que está viajando pelo interior de São Paulo, em compromissos pessoais e relacionados à campanha dos filhos, e que pretende se apresentar às autoridades em até 24 horas.
O ex-vereador também negou as suspeitas que fundamentaram o mandado de prisão.
“Não sou dono de empresa de ônibus e só assumi uma interlocução na SPTrans a pedido do Bruno Covas, por causa da greve de 2019. Não tem nada de ilegal. Vou me apresentar ainda hoje porque não devo nada”, declarou Milton Leite.
Milton Leite tem 70 anos e foi vereador de São Paulo por 27 anos. Ele chegou à Câmara Municipal em 1997 e foi reeleito por seis vezes consecutivas. Nas eleições de 2016 e 2020, esteve entre os vereadores mais votados do país.
Ele presidiu a Câmara Municipal em quatro ocasiões, nos períodos de 2017 a 2018 e de 2021 a 2024. Também ocupou interinamente o cargo de prefeito de São Paulo por cerca de cem dias, durante períodos em que assumiu o Executivo municipal.
Em 2024, anunciou que não disputaria novamente uma vaga de vereador e deixou o Legislativo. Apesar disso, permaneceu atuando na política partidária. Atualmente, preside o União Brasil na capital paulista e, em julho deste ano, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada por União Brasil e Progressistas.
Milton Leite também é pai de dois políticos: o deputado federal Alexandre Leite (União Brasil) e o deputado estadual Milton Leite Filho (União Brasil), que mantêm atuação política e eleitoral na região.
Além de Milton Leite, a operação também teve como alvo o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira, que foi preso. Segundo os investigadores, ele teria mantido encontros periódicos com José Daniel Satilite, conhecido como Alemão e apontado pela Polícia Civil como integrante do PCC e um dos principais intermediários do esquema.
Outro preso é Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande e atualmente era candidato a deputado estadual. Segundo a investigação, ele teria vínculos com integrantes do PCC e sua campanha eleitoral teria recebido recursos da organização criminosa.
Entre as empresas de transporte citadas na investigação estão Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.
A Operação Vectura Corrupta é um desdobramento de investigações iniciadas em 2024, quando a Polícia Civil e o Ministério Público passaram a apurar a atuação do PCC em diferentes setores. A partir da análise de celulares apreendidos e de outras diligências, os investigadores identificaram suspeitas de atuação da organização criminosa no setor de transporte, além de possíveis conexões com agentes públicos, empresários, advogados e campanhas eleitorais.
As acusações ainda são objeto de investigação, e Milton Leite nega envolvimento com as irregularidades apontadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.
*Com informações G1 e Uol