O avanço do Grupo Comporte no setor de transporte de passageiros rodoviário e ferroviário — com aquisições, incorporações de empresas importantes e controle cada vez mais centralizado — acende um sinal de alerta sobre possíveis riscos à concorrência, à qualidade dos serviços e à proteção dos direitos dos usuários em todo o estado de São Paulo.
A tendência de concentração de mercado, que já tem se consolidado nos últimos anos com a compra de empresas tradicionais, pode gerar efeitos negativos que vão além das fronteiras corporativas e impactar diretamente a população que depende diariamente do transporte coletivo.
De acordo com reportagem publicada recentemente, a Viação Piracicabana, integrante do grupo, está em vias de assumir o controle da tradicional Reunidas Paulistas de Transportes Ltda. e do braço rodoviário da Expresso Fênix, operações que dependem ainda da aprovação do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Essas movimentações representarão a unificação de operações sob uma mesma marca dominante em várias regiões de São Paulo e Minas Gerais.
Especialistas em concorrência alertam que a concentração excessiva, especialmente em setores essenciais como transporte de passageiros, pode limitar a competitividade do mercado. Com menos operadores independentes, há risco de redução de alternativas para o passageiro, menos pressão por melhorias de serviço e potencial para aumentos de preços — principalmente em rotas estratégicas e em horários de menor demanda.
1. Redução de concorrência e de opções para o usuário
A consolidação de linhas e empresas sob um único grupo pode levar à diminuição do leque de opções para os usuários. Em um ambiente competitivo, empresas buscam atrair clientes por meio de melhores horários, mais conforto e tarifas justas. Com menos competidores no mercado, esse incentivo à melhoria contínua pode ser reduzido, prejudicando diretamente o passageiro.
2. Tarifas e serviços sob menor pressão competitiva
A ausência de concorrência eficiente tende a criar um cenário em que o operador dominante tem maior poder de definir tarifas e regras de operação. Sem concorrentes robustos disputando clientes nas mesmas rotas, a margem de negociação por melhores preços ou condições de pagamento para o usuário diminui.
3. Impactos regionais desiguais
Apesar de alguns ganhos de escala — como integração de operações e maior padronização de processos —, a concentração pode agravar disparidades regionais no atendimento. Regiões menos lucrativas ou com menor demanda tendem a receber menos investimentos ou sofrer cortes de serviços, já que a lógica de negócio privilegia rotas com maior retorno financeiro.
4. Dependência de um único operador
Situações de crise (como greves, panes operacionais ou falhas técnicas) podem ter impacto ainda maior quando um único grupo controla a maior parte das linhas de transporte. A falta de operadores alternativos dificulta a rápida recomposição de serviços essenciais, sobretudo em áreas metropolitanas e trajetos intermunicipais vitais para a economia.
O papel de órgãos reguladores como o CADE, a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) e a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) torna-se ainda mais importante à medida que cresce a participação de um único grupo no setor. A fiscalização rigorosa e a imposição de contrapartidas podem ser ferramentas para evitar que o domínio de mercado se transforme em prejuízo para o cidadão.
A concentração também pode afetar o acesso ao transporte público de forma mais ampla, influenciando políticas tarifárias e a definição de rotas estratégicas de mobilidade. A sociedade e as autoridades públicas têm um papel central em monitorar esse processo, exigindo transparência nas negociações e garantindo medidas que protejam o interesse coletivo.
O crescimento do Grupo Comporte no setor pode trazer eficiências operacionais e maior capacidade de investimento, mas também levanta questões cruciais sobre a preservação de um mercado competitivo e os direitos dos usuários do transporte público e rodoviário de passageiros. A influência de um único operador em serviços essenciais precisa ser analisada sob a ótica de riscos e prejuízos, para que São Paulo não enfrente, no futuro, um cenário de menor qualidade e opções reduzidas no transporte que milhões de pessoas utilizam diariamente.